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Engenheiro na cozinha

Resolvi, com a ajuda da alta do euro, corrigir uma lacuna na minha formação: aprender a cozinhar alguma gororoba. Dos tempos de engenharia, éramos especialistas em leite em pó e café solúvel - começo importante, mas claramente insuficiente para vôos mais altos. Apoiado na consultoria intercontinental do meu amigo Gallão, da Sula, sua esposa, da Héllade, da Liana, da minha mãe e de minha irmã, me arrisquei em duas frentes: arroz e macarrão. Para começar, uma surpresa: não há manuais de procedimento para enfrentar a cozinha básica, salvo os tais livros de receitas, mas que consideram, pelo jeito, que todos já são iniciados. A bem da verdade, o macarrão italiano tinha instruções detalhadas na embalagem: para cada 100g, 8g de sal e um litro d´água, e “ferver por 8 min, mexendo de vez em quando”. Mas e agora, como tomar as medidas? A embalagem era de 500g; 8g de sal, só com balança de precisão. Bom, aí quem não é especialista tem que se socorrer do que sabe. Afinal, anos de engenharia devem...

O nosso papel no mundo e Olívia Byington

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PORTUGAL – Frequentemente me pergunto o que, aparentemente, nos excluiu da história do mundo. Os meios de comunicação, tanto aqui quanto no Brasil, nos trazem um mundo que acontece no hemisfério norte, ou nas ex-colônias britânicas. A fronteira do conhecimento, da tecnologia, do desenvolvimento social, da política, da história da humanidade, enfim, parece que está sempre sendo alargada apenas nesses poucos países. Basta sintonizar os canais History, Discovery, ou National Geographic, para essa sensação se agravar. É como se não existíssemos, como se não estivéssemos integrados nas raízes da família humana: não teríamos feito parte da pré-história, nem da antiguidade, nem dos grandes acontecimentos contemporâneos. Mas toda criança, brasileira ou esquimó, sabe que não é assim. Intui que pertence a história deste planeta, que faz parte da comunidade de humanos, que crescerá e terá seu lugar na história humana, tanto quanto uma criança americana ou inglesa. Ao crescerem, a criança american...

Eleições Presidenciais Portuguesas

PORTUGAL - Domingo passado, dia 22, aconteceram as eleições presidenciais aqui em Portugal. Venceu Cavaco Silva, um conservador de direita. Ele próprio um dos grandes nomes da política portuguesa no pós-25 de abril de 1975, ano da restauração da democracia, derrotou, de forma humilhante, um ícone: Mário Soares, o principal candidato da esquerda. Como sintetizou um analista, estavam em jogo duas visões opostas da forma de conduzir e transformar a sociedade: Cavaco a compreende a partir da economia; Mário Soares, a partir da política. Do ponto de vista de pesquisador, chamou-me a atenção as diferenças em relação ao nosso sistema. A começar da propaganda eleitoral. Como as eleições eram exclusivamente presidenciais, sem candidatos a governador (mesmo porque não os têm), deputados federais e estaduais (idem), pode-se observar com nitidez as propostas (ou ausência delas) dos seis candidatos. E, por decorrência, uma campanha visualmente limpa, com raros outdoors e placas, sem o desespero de ...

Um viela típica

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Uma viela da região ribeirinha. Certamente foi uma ruazinha de favela medieval - com licença da impropriedade formal do termo. Com o passar dos séculos, se embelezou. Eles também tinham casebres. Só tiveram mais tempo do que nós. Amplie para você ver os detalhes.

Visita à cidade do Porto e Lógica peculiar - II

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Estive hoje no Porto. Cidade apaixonante, transpira história, tradição. Este rio aí do lado é o Douro. Os cafés às suas margens são encantadores (o Prof. Macaé me disse que as caves de vinho - do Porto! - são melhores ainda). Na estação dos Caminhos de Ferro, mais uma amostra da lógica própria daqui, que me fez lembrar de outra, ocorrida há algumas semanas: Surpreso por ter pago 3,50 € de Aveiro ao Porto e, na volta, apenas 1,90 €, perguntei o motivo ao bilheteiro. - Ora, um é inter-regional e outro é urbano. - Sim, mas porque o urbano é mais barato? - Pois não sei! Outro dia, na garagem de meu prédio. Esquecido como sempre, deixei a chave da porta de acesso no apto. Mas havia um outro morador por ali, em frente à porta da outra ala do prédio. Dirige-me a ele: - Por favor, é possível eu passar por essa porta aí? - Não sinhore, não há hipótese. - Mas por que? - Porque fica trancada. - Mas como o senhor passou? - Ora, é que tênho â châve!

Visitas

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Nas faldas da Mantiqueira, abaixo do majestoso Pico dos Marins, tem um bairro. Antigo, muito antigo, cujo nome informa que foi refúgio e espaço de liberdade: Quilombo. Passa por um ele um rio, M´baú, ou Rio Embaú. Forma um pequeno vale, dentro do grande Vale do Paraíba. Um microcosmo. Nasci aí. Nosso sítio, fração de herança do meu bisavô, fica às margens desse rio. O Rio Paraíba, a cumeeira da Mantiqueira, o Rio Embaú, e as estradas que vieram depois – “caminho de ferro entre Rio e São Paulo” e a Via Dutra, são linhas paralelas, que acabaram me dando a impressão que o mundo era organizado linearmente. Passei minha infância às margens do rio, à sombra das árvores, correndo (de bicicleta) atrás dos gansos, perseguindo-os até que pulassem n´água, dando pelotadas em tico-ticos (um único que feri, me matou de remorsos), aloitando (não me lembrava mais desta palavra) com meu cachorro no campinho em frente e à esquerda de casa, que o papai mandou aplainar quando abriram a estrada nova, ouvi...

Natal

Não fora a liturgia, seria desolação. Salvou-me o "Gloria in excelsis Deo", eterno, universal, no coro juvenil. Antes da Missa uma singela encenação de adolescentes (surpreendentemente amadora, tímida e pontuada de risinhos nervosos, como as nossas mesmas - mas, por isso, mesmo, mais encantadora) do nascimento do Menino. Rejeitados nas hospedarias, onde não havia lugar para eles, a menina grávida, "just sixteen, mama-child", e seu jovem marido, quase adolescente, dá a luz à Ele, num curral, entre palha, sujeira e animais, que O aquecem e, certamente, O reconhecem. Piedosamente o evangelista acrescenta o coro de anjos, para marcar o nascimento de Deus. Mas, como lembrou Cony, diz-nos o mesmo S. Lucas: nasceu no meio do silêncio, "dum medium silentium". Em loucura de paixão pela sua criatura, veio para o mundo, que gerou, que Lhe pertence e anima, mas o mundo não O conheceu e ainda nao O conhece. Me encanta e inebria pensar nisso: no Deus Menino que desce ao...